Doze dias depois de perder, injustamente, o Oscar
de melhor documentário, chega ao Brasil o excelente Na captura dos Friedmans
(Capturing the Friedmans, EUA, 2003). Seu diretor é Andrew Jarecki,
profissional radicado na TV, estreando agora em longa-metragem.
Grande estréia, por sinal! Friedmans é
um filme de primeira grandeza, eloqüente, sem peripécias narrativas ou ironias.
Em 107 minutos (que passam rápido, sem a gente perceber), o filme reconstitui
um escândalo de pedofilia envolvendo uma família judaica norte-americana.
O tema é delicado - você nunca deve ter visto
algo parecido no cinema -, e Jarecki, ainda por cima, optou pela imparcialidade.
De qualquer maneira, não é preciso esperar até o final para concluir que o diretor
acertou. O senso comum prega a execração dos pedófilos. Se Jarecki fizesse o
mesmo (como fazem Ratinho, Datena, Rezende...), Friedmans apenas choveria
no molhado.
Além do mais, Jarecki sabe que a maior virtude
de um documentário - de qualquer documentário - é sua contundência, o impacto
de seu conteúdo, o que não tem nada a ver com objetividade ou subjetividade.
Vamos ao filme. A história se passa na cidade
de Nova Jersey e começa em 1987, no Dia de Ação de Graças. A respeitada família
Friedman - composta por Arnold (o pai), Elaine
(a mãe) e seus três filhos adolescentes - está reunida em casa. De repente,
a polícia chega ali com um mandado de prisão contra Arnold, acusado de envolvimento
com pornografia infantil.
Ninguém da família parece entender direito, mas
todos ficarão sabendo depois que Arnold, na realidade, é um pedófilo compulsivo.
Dono e professor de uma escola de computação, ele misturava aulas de informática
com sessões de pedofilia, nas quais os alunos eram torturados e submetidos a
abusos de vários tipos, como felação (sexo oral) e sodomia (sexo anal).
As aberrações não param por aí. David, filho
mais velho dos Friedmans, é cúmplice nisso tudo e também se diverte com a criançada.
Na segunda metade do filme, somos informados de que, na infância, o próprio
David sofreu abuso sexual do pai.
A família em frangalhos
Se a forma de Na Captura dos Friedmans é
tradicional, o filme brilha ao explorar um universo do qual o cinema quer distância.
Você pode achar que é um documentário quadrado demais, mas foi assim que Andrew
Jarecki conseguiu fazer uma reconstituição neutra.
No começo, parece haver algo de incerto - uma
sensação de que o diretor não quer assumir a verdade. É só impressão, pois os
fatos vão se aclarando minuto a minuto. A montagem é perfeita, equilibrando
o filme e distribuindo habilmente as revelações, que são muitas.
Jarecki foi beneficiado - e em certo ponto guiado
- por uma obsessão dos irmãos Friedmans. Eles tinham a mania de pegar a câmera
portátil da família e sair gravando o que se passava em casa. As imagens, embora
pareçam forçadas ou melodramáticas, servem sobretudo para mostrar a fragilidade
crescente entre eles. Mostram Elaine indefesa e desorientada, enganada dia após
dia por Arnold. Mostram os filhos tentando desesperadamente acreditar no pai
e persuadir a mãe, ainda que novas acusações surjam às tantas. Mostram um Arnold
silencioso, constrangido, entregue à própria sorte. Mostram, enfim, uma família
em inevitável e dolorosa decomposição.
Os dois réus, Arnold e David, acabam por confessar
os crimes. Só que, curiosamente, nenhuma criança traz sinais de abuso, e as
provas são frágeis, duvidosas. É nesse ponto que o filme lança novas questões.
Tudo bem que a pedofilia seja um crime praticamente incomparável - mas por que
a Justiça induz vítimas a apimentar ou mesmo a inventar denúncias? Por que as
investigações são conduzidas de forma tão porca e leviana? Não só os Friedmans
estão perdidos. Na ânsia de condená-los, a Justiça se atrapalha e comete erro
atrás de erro.
Há semelhanças nítidas entre Na Captura dos
Friedmans e o clássico expressionista M, o Vampiro de Düsseldorf.
Nas duas histórias, ocorrem crueldades contra crianças de uma certa comunidade,
e o criminoso é uma figura enigmática, quase incompreensível.
Dirigido por Fritz Lang e lançado em 1931, M
tem uma cena final antológica. Durante o julgamento improvisado do infanticida
que apavora Düsseldorf, ele mesmo se defende com um grito comovente: Eu
preciso de ajuda.
De ajuda também necessitam os dois pedófilos
de Na Captura dos Friedmans. Desta vez, é o diretor Andrew Jarecki que
nos convida a entender a complexidade da mente criminosa. Você não precisa se
compadecer com Arnold e David Friedman, mas será que é vergonhoso tentar entendê-los?