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Jogos
mortais
Saw
EUA, 2004
Terror - 100 min. |
Direção:
James Wan
Roteiro: James Wan (história)
Leigh Whannell (roteiro)
Elenco:
Leigh Whannell, Cary Elwes, Danny Glover, Ken Leung, Dina Meyer,
Mike Butters, Paul Gutrecht, Michael Emerson, Benito Martinez
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Na política, os tempos de insegurança são os
mais propícios para o aparecimento de pretensos salvadores da pátria. Desesperada,
a massa tende a acreditar no discurso mais populista. Vale o mesmo para o cinema,
ainda mais nestes dias de crise em Hollywood. Evite cair, por exemplo, em propagandas
que pronunciam milagres, do tipo "O melhor filme de serial killer desde
Seven!!"
É assim que a distribuidora no Brasil promove
Jogos mortais (Saw, 2004), do estreante diretor
e roteirista James Wan.
O filme tem uma premissa interessante, de fato. O assassino em questão não é,
essencialmente, um homicida. Ele aprisiona pessoas em situações limítrofes e
os instiga a mutilar e matar em troca da fuga. Muitos se suicidam. O que move
o torturador não é um mero trauma de infância ou uma psicose assexuada: ele
simplesmente quer mostrar para as suas vítimas, escolhidas entre hipócritas,
viciados e indolentes, que eles deveriam aproveitar melhor a vida que lhes é
dada.
Na primeira cena, somos apresentados a Lawrence
(Cary Elwes) e Adam (Leigh Whannell, também
co-roteirista), dois desconhecidos que acordam num banheiro sem saber como chegaram
lá. São reféns do "assassino". Estão acorrentados. Acham dois envelopes,
cada um endereçado a um deles. Há um revolver e um gravador nas mãos
de um terceiro homem, morto com uma bala na cabeça, no meio do espaço entre
Lawrence e Adam.
Se parece com aqueles jogos de computador em primeira pessoa cheios de chaves escondidas e passagens secretas, não é mera coincidência. O sucesso comercial do filme nos EUA se deve muito ao seu caráter lúdico, ao quebra-cabeças que todos gostamos de tentar resolver. Promissor, não? O problema é que essa trama vendida como thriller intimista se revela na prática um trash cômico altamente petulante.
Scooby-Doo
Há bons componentes ali. Lawrence só será libertado se matar Adam. Isso daria material para um ótimo suspense realmente psicológico e, até, um ensaio moral que vai além da superfície do gênero. Mas quando exigido a desenvolver essa trama, aprofundá-la, o diretor Wan se contenta com a "corrida contra o tempo", a "brincadeira de gato e rato" e todo clichê que você quiser adicionar.
E segue-se ladeira abaixo, acredite. Surge um Danny Glover como policial atormentado, caricato, que sequer consegue desarmar um enfermeiro - em duas oportunidades! Temos crianças e vultos no armário, inclusive. O discurso de justificativa do torturador é repetido à exaustão. Quando o Lawrence do péssimo ator Cary Elwes começa a gaguejar e surtar, o riso vem fácil, até. E os buracos no roteiro vão se acumulando ao ponto em que não faz mais sentido tentar tapá-los por conta própria.
Não é uma deficiência somente do script. Apesar de dirigir com desenvoltura sequências que exigem estômago, Wan se acomoda. Tive a paciência de contar: ele exibe a cena-chave da foto no estacionamento não uma, nem duas, mas três vezes, para que fique tudo bem mastigado na cabeça do público. Um diretor que não confia em simples insinuação visual, que subestima a inteligência de quem o assiste, não merece a menor consideração.
E um dia as pessoas vão perceber que reviravoltas, esse passe-de-mágica revolucionário que transforma finais triviais em desfechos "cabeça", tipo Scooby-Doo (com direito a vilão tirando a máscara), na verdade são a maior muleta de muito cretino metido a cineasta.