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Manderlay,
2005
Dinamarca/Suécia
/Holanda/França
Drama - 139 min. |
Direção:
Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
Elenco: Bryce Dallas Howard, Isaach De Bankolé,
Willem Dafoe, Danny Glover, John Hurt, Chloë Sevigny, Udo Kier,
Lauren Bacall, Jeremy Davies, Derrick Odhiambo-Widell
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Em 2003, com Dogville,
o diretor dinamarquês Lars von Trier criou uma nova
linguagem na maneira de fazer cinema. O filme foi ovacionado por boa parte da
crítica. Na época, o polêmico diretor anunciou que aquele
era o primeiro de uma trilogia que tinha como tema central a intolerância
nos Estados Unidos e isso criou ainda mais expectativa.
O festival de Cannes
deste ano foi o primeiro a conferir Manderlay (2005),
capítulo central dessa trilogia. A
história continua no exato momento em que termina o primeiro. Após deixarem
para trás o vilarejo de Dogville, Grace e o pai acabam, por acaso, nos portões
da fazenda de Manderlay, no sul dos Estados Unidos. Lá, Grace descobre uma estrutura
escravagista em pleno funcionamento, numa época em que a escravidão já havia
sido abolida. Ela se envolve então nas relações entre os empregados negros e
seus patrões, apenas para descobrir que os laços entre as duas classes são bem
mais complexos do que ela pensava.
Repetindo a fórmula
Mais uma vez von
Trier filmou num estúdio e utilizou os mesmos recursos que em Dogville:
casas e outros cenários são apenas marcas no chão, deixando por conta da imaginação
do espectador sua visualização. Ele também dividiu a trama em
capítulos e manteve a narração sarcástica do ator John Hurt.
Em suma, a estrutura dos dois filmes é idêntica.
A grande diferença
ficou mesmo por conta dos protagonistas. A atriz Nicole Kidman
não retornou à personagem. Bryce Dallas Howard (A
vila) assumiu o papel com muita competência. Mas não dá para competir
com o carisma de Nicole. Bryce ainda precisa comer muito arroz com feijão -
este é apenas seu segundo papel de destaque no cinema. James
Caan, que fazia o papel do pai Grace, também foi substituído
e passou o mafioso a Willem Dafoe.
Sem o elemento-surpresa
do primeiro filme, von Trier precisava adicionar algum elemento novo e poderoso
para equilibrar a balança. Restou ao cineasta apostar na história - e
ele acertou em cheio. A trama é muito mais ousada e irônica. A intolerância
da vez é o racismo. Mesmo aconselhada por seu pai a não se envolver com os problemas
em Manderlay, Grace resolve levar justiça à cidade. Após a morte de M´am
(Lauren Bacall, que fazia outra personagem em Dogville),
a matriarca da cidade, Grace começa a reestruturá-la com a ajuda de alguns capangas
deixados por seu pai. Ela liberta os negros e força os brancos preconceituosos
a trabalharem ao lado deles.
Nesse momento,
não há como desassociar essa democratização empreendida por Grace, com as atitudes
do governo estadunidense em relação ao Iraque, entre outros atos de "democracia
à força". Será que as pessoas podem ser forçadas a seguir
esse modelo? Os libertados de Manderlay, por exemplo, não mostram qualquer
tipo de iniciativa. Grace não desiste e, em seminários, começa a ensiná-los
a agir democraticamente, utilizando os votos da maioria, deixando para trás
as decisões arbitrárias. Contra todos os reveses, a cidade acaba tendo sucesso
com o comando de Grace. E, depois da colheita do algodão, ela declara que os
habitantes da cidade agora estão verdadeiramente “formados” americanos. Só por
essa crítica pertinente, von Trier já merecia ser saudado, já que a construção
dessa idéia é de extrema simplicidade e sutileza.
Mas em se tratando
de um filme de Von Trier as coisas não param por ai. Algumas reviravoltas e
surpresas acontecem. Se ao final o dinamarquês não repete a obra-prima que é
Dogville, consegue tratar de tema mais reconhecível, apesar
de não menos complexo. Resta saber o que vem a seguir... ele já anunciou
que a última parte, Washington, só será produzida em 2007. Isso deve
garantir-lhe tempo suficiente para tentar buscar inspiração e, talvez, criar
mais uma vez algo inovador. Pelo menos é que os seus fãs esperam.