Em 2001, o estúdio Square colocou nas telonas o
aguardadíssimo Final
Fantasy, longa de animação que tinha a proposta de substituir atores
de carne e osso por modelos digitais perfeitos. Caríssimo, o filme naufragou
nas bilheterias com seus bonecos inexpressivos - que só eram lindos nas fotos,
estáticos! - e roteiro fraquinho, que ignorava totalmente a rica mitologia da
longeva série de videogames da qual o filme levava emprestado o título.
Pois a Square aprendeu a lição. O recém-lançado Final
Fantasy VII: Advent Children (2004), filme que chega direto em DVD,
resolve os dois principais problemas do projeto de 2001. O roteiro mergulha
fundo na trama dos games e a computação gráfica aparece aperfeiçoadíssima, com
uma qualidade nunca vista antes!
Se os bonecos 3D de antes limitavam-se a poucas expressões,
sem sutilezas, os novos personagens têm mais vida que muitos atores de verdade
por aí. São movimentos quase imperceptíveis de músculos faciais que dão enome
credibilidade às atuações dessas criações virtuais. Os produtores foram muito
felizes também ao não tentarem recriar humanos perfeitos. A proposta aqui é
manter a estética do animê - com seus cabelos bizarros, lutas impossíveis (Matrix
parece briga de rua perto das possibilidades que esta nova técnica explora)
e rostos andróginos - replicando no filme as personagens dos games, registradas
com ângulos e movimentos de câmera típicos dos jogos eletrônicos.
Entra aí também o outro ponto resolvido por Advent
Children. São mais de vinte heróis e vilões velhos conhecidos dos fãs numa
aventura que é seqüência direta do jogo Final Fantasy VII. Na direção
e produção, profissionais veteraníssimos que ajudaram a solidificar a franquia
de fantasia e ficção futurista, como Tetsuya Nomura e Takeshi Nozue.
Tamanha fidelidade à trama, porém, tem seus pontos negativos.
Qualquer pessoa que nunca tenha jogado a série terá enorme dificuldade em compreender
a história. Afinal, ela não é baseada ou inspirada nos games, mas sim uma continuação
linear do que acontece nos consoles. Confesso que entendi muito pouco do filme
e perdi montanhas de referências - e olha que assisti ao vídeo a história até
aqui, que vem como extra do DVD. Trata-se de um filminho com quase meia hora
de duração com cenas importantes da série. Mas pela própria natureza da solução
- cenas gravadas do jogos -, a narrativa fica extremamente prejudicada. Uma
pequena seqüência animada com cinco minutos de duração narrando os acontecimentos
prévios poderia ter obtido mais sucesso nessa recapitulação.
Os fãs, no entanto, não devem ter problema algum em acompanhar
o herói Cloud deixando o auto-imposto exílio para encarar uma nova ameaça.
Dois anos depois do cataclisma que atingiu a cidade de Midgar, deixando imponentes
ruínas como um atestado dos sacrifícios realizados para que a paz fosse mantida,
o mundo enfrenta uma misteriosa doença que está se espalhando rapidamente. Junto
com as manchas escuras que se alastram pela pele de algumas pessoas, volta um
trio de inimigos cheio de recursos. Seu intuito é trazer de volta o poderoso
Sephiroth, algo que Cloud, que se afastou da vida de herói para viver
em solidão, não deixará acontecer.
Basta uma rápida análise da sinopse acima para que se
tenha a certeza de que a Square é dessas empresas 8 ou 80... ou ignora completamente
os fãs, ou só dá atenção exclusiva a eles. Uma adaptação cinematográfica das
aventuras de Final Fantasy, que agradasse a ambos os públicos, teria
sido muito mais proveitosa e poderia até expandir a série de games para outras
mídias. Como não foi o caso, cabe aos não-iniciados - eu mesmo preferia outros
RPGs - aproveitar apenas o verdadeiro delírio visual que Advent Children
proporciona. É realmente incrível.