 |
| |
A
Casa Monstro
Monster House
EUA, 2006
Animação - 115 min |
Direção:
Gil Kenan
Roteiro: Dan Harmon, Rob Schrab e Pamela Pettler
Vozes no original: Steve Buscemi, Nick Cannon, Maggie
Gyllenhaal, Jon Heder, Kevin James, Jason Lee, Sam Lerner, Spencer
Locke, Mitchel Musso, Catherine OHara, Kathleen Turner, Fred Willard,
Matthew Fahey, Ryan Newman, Erik Walker |
|
 |
 |
 |
Houve um tempo em que ver o nome da Amblin Entertainment
nos créditos iniciais de um filme era garantia de diversão. A produtora
de Steven Spielberg criou algumas das melhores comédias de aventura dos
anos 80, como Gremlins (1984), Os Goonies (1985), De volta
para o futuro (1985) e Uma Cilada para Roger Rabbit (1988). Seu segredo:
equilibrar ingenuidade com senso de descoberta. Os personagens típicos da Amblin
são curiosos incorrigíveis - e em A Casa Monstro também são.
Desde 1998, com Pequenos Guerreiros, a companhia
não produzia um filme infantil tão decente - no sentido de oferecer entretenimento
de primeira linha, com alguns lampejos de genialidade, sem menosprezar a inteligência
dos pequenos.
Na história, escrita por Pamela
Pettler (Noiva cadáver) e pela dupla Dan Harmon
e Rob Schrab, as duas calçadas de uma rua residencial bastam para
hospedar a aventura. De um lado, o retraído D.J. observa da janela do
seu quarto o que acontece no vizinho, casa soturna do caquético Sr. Epaminondas
(Nebbercracker no original, muito bem dublado por Steve Buscemi). Basta
relar na grama do seu jardim para que o velho se enfureça. D.J. não perde a
conta - pela manhã, véspera de Halloween, ele já destruiu o terceiro triciclo
que passou por ali. Alguém precisa fazer alguma coisa.
D.J., claro, tem um amigo gordo, Chowder. Nesse
tipo de filme o amigo gordo serve, basicamente, para fazer as burradas que movem
a trama adiante. A bola de basquete de Chowder cai no gramado de Epaminondas.
Quando tenta pegá-la, D.J. é surpreendido pelo vizinho. No meio da confusão,
o velho cai duro no chão. Será que morreu? Vivo ou não, o fato é que sem seu
dono a casa cria vida própria, do tipo que devora os passantes. E ela não gosta,
particularmente, do moleque que mora do outro lado da rua...
É ótimo constatar que ainda há realizadores capazes de
contar uma boa história em um espaço tão limitado. Estabelecer tensão entre
as duas calçadas, definir muito bem o que difere o mundo de D.J. do mundo de
Epaminondas, são as primeiras qualidades da animação computadorizada. Curiosamente,
é o primeiro trabalho como diretor de Gil Kenan. O animador tem olho
de cineasta - as perspectivas (repare no ponto de vista do arcade, na cena do
nerd Skull), as profundidades, as câmeras que pegam closes em momentos inusitados,
os planos que se alongam para dar graça a uma cena... Kenan pensa o cinema antes
de pensar a animação, e não é sempre que se acha um profissional da área com
esse perfil.
Foi feliz a decisão do produtor Robert Zemeckis
de empregar a tecnologia de captura de movimentos criada para O
expresso polar (2004),
mas não delinear demais os traços físicos dos atores e atrizes. No filme de
2004 isso dava aos personagens, apesar de mais realistas, aquele olhar de peixe
morto. A Casa Monstro confia mais na estilização. Com jeito de caricatura,
os seus personagens ficam mais simpáticos - e, afinal, se encaixam perfeitamente
nos tipos que lhe foram desenhados: do garoto tímido, do amigo gordo, do velho
ranheta.
Não é o caso de denunciar a tipificação dos personagens
como se fosse um clichê (ah, sempre tem o amigo gordo!, daria pra dizer). Enquadrá-los
nesses papéis consagrados é uma forma de facilitar a identificação com o espectador.
E, no final das contas, as crianças dos anos 1980 e 2000 não são assim tão diferentes
- dizem para si mesmas que querem crescer, implicam com os adultos que os tratam
infantilmente, mas se agarram às brincadeiras quando percebem, sim, que a infância
está passando. O essencial, vale repetir, é equilibrar a curiosidade, e nesse
sentido D.J. e Chowder caberiam facilmente no grupo dos Goonies - um
filme, aliás, que virou clássico do seu tempo, entre outras coisas, pela tipificação
dos personagens.
Tirando toda essa elucubração, se você precisa de mais
motivos para assistir a A Casa Monstro (além do visual impecável e da
narrativa segura), vá pelos coadjuvantes: Bones, Skull, os policiais, a garotinha
do triciclo... São eles - e esse é segredo de filmes presos a protagonistas
tipificados - que respondem pelo diferencial e que dão personalidade ao negócio.
Se você é do tipo que sempre escolhe o coadjuvante-comédia como boneco para
colecionar, sabe do que estou falando.