Ao dirigir-me à cabine de imprensa do
filme Asterix e os vikings (Astérix et
les vikings, 2006) já estava preocupado com a idéia de poluir
o texto da nova animação da genial criação de René
Goscinny e Albert Uderzo com rabugices a respeito
da dublagem nacional, a cargo da equipe do Pânico. Mas fui desarmado
com um golpe de mestre logo na entrada pela assessora de imprensa da distribuidora:
"trouxemos a versão legendada por causa do Omelete", disparou
ela sem aviso. Touché! Agora não temos como reclamar
da Sabrina Sato! Ninguém manda resmungar antes da hora. ;-)
Já afastado do perigo maior, me restam apenas os elogios. Este
é, sem dúvida, o melhor desenho já produzido com a dupla
de simpáticos gauleses. A história se baseia no álbum Asterix
e os normandos. Nela, Abracurcix, chefe da aldeia de irredutíveis
gauleses, tem uma difícil missão: transformar o jovem Calhambix, seu sobrinho medroso e moderninho da Lutécia
(Paris), que tem até "pombo-celular" e SMS, em um homem corajoso. Para tanto, o coloca aos cuidados de seus maiores
guerreiros, Asterix e Obelix. Durante o treinamento,
porém, surge um grupo de vikings. Eles estão na Gália em
busca do Campeão do Medo, alguém que, crêem eles, é
capaz de ensiná-los a voar. O problema é que eles dão de
cara com o medroso Calhambix, que é levado à força para o longínquo
norte. Cabe aos heróicos Asterix e Obelix, claro, partir para o resgate.
A trama é um tanto simplificada e não
carrega as sutilezas das histórias em quadrinhos, provavelmente visando
atingir o público infantil estadunidense, mas a técnica empregada
compensa qualquer concessão narrativa.
Dirigido por Stefan Fjeldmark
(Mamãe,
virei um peixe), o filme mistura animação tradicional
com computação gráfica - que entra especialmente em cenários
e estruturas, como o navio dos vikings. Os 30 milhões
de dólares de orçamento são visíveis na qualidade
atingida. Sobrou trabalho até para uma equipe de brasileiros.
O Lightstar Studios, no interior de São Paulo, foi encarregado de refinar os desenhos (clean-up) e fazer a intervalação
(criação dos movimentos intermediários para completar a
ação do quadro), além de participar da animação
de personagens em algumas seqüências.
E se não dá pra reclamar da contratação
de famosos em detrimento de profissionais da área de dublagem, resta
ao menos elogiar a existência de uma versão legendada. A que chega
ao Brasil tem as vozes de Paul Giamatti, Sean Astin
e Evan Rachel Wood - competente trio de atores selecionado
pelos produtores para tentar emplacar Asterix nos EUA. Tarefa difícil,
já que até hoje não foram lançados por lá
nem os dois filmes estrelados por Christian Clavier e Gérard Depardieu!
Outro esforço que tenta aproximar esses dois mundos é a presença
da cantora Celine Dion na canção-tema. Famosíssima
pela música do Titanic (1997), a canadense de Quebec cantou
a música tema tanto em francês (sua língua pátria)
como nesta versão em inglês.
Nada que melhore ou prejudique o filme pra nós,
enfim, mas seria interessante o sucesso de Asterix do lado de cá do Atlântico.
Afinal, mais dinheiro para uma das melhores franquias iniciadas nas histórias
em quadrinhos poderia gerar mais bons desenhos como este. E, por Tutatis, estamos
precisando deles!