Adoração (Adoration, 2008), novo filme
do diretor canadense de ascendência armênia Atom Egoyan, nos ensina
que a intolerância se espalha mais rápido do que a compaixão. Não é uma lição
complexa, a bem da verdade nem muito original. Complexos, complicadíssimos,
são os caminhos que Egoyan toma para chegar a essa lição.
Somos apresentados a uma mulher grávida (Rachel Blanchard)
que tenta embarcar num avião para Israel, dizendo que seu marido a encontrará
depois. É a mesma história que o adolescente Simon (Devon Bostick)
conta em voz alta numa sala de aula no Canadá, sobre como seus pais quase
explodiram um avião em um atentado suicida. Em seguida uma professora de francês
e teatro (Arsinée Khanjian) repete a mesma história - evento, depois
vamos entender, que se passa antes da cena do aluno.
Adoração é uma narrativa não-linear, em que histórias
inventadas se misturam com as histórias dos personagens, e explicar
todo esse caldo tomaria um texto inteiro. O que vale dizer é que, ao final,
tudo se simplifica de forma abismal. Egoyan, bem a seu modo, nos impõe informações
desordenadas no começo, a exemplo de Ararat,
e essa afobação aos poucos diminui, até que o fôlego se esvai por inteiro
às margens do desfecho do filme.
Egoyan não é o cineasta mais conciso do mundo, mas mesmo alguns
de seus longas mais prolixos, como Verdade
Nua, são uniformes. Não é o caso do disforme Adoração. Ao longo
do filme são colocadas questões de religião, representação, inconsciente coletivo,
terrorismo midiático, tudo musicado pelo sofrido violino da trilha sonora.
Ao final, sobra só o violino, literalmente.
Um exemplo de resolução precária às questões que Egoyan levanta
é a cena em que o garoto joga o celular na fogueira: desde o começo, Egoyan
nos levou a questionar a forma como uma informação se espalha e se debate,
seja ela uma informação verídica ou mentirosa, à distância, pela via tecnológica,
eternizando-se em vídeos e fotografias, para no fim simplesmente encerrar
o assunto com uma simbologia batida, a do conflito que se encerra no fogo,
em cinzas.
Uma das imagens mais marcantes de Adoração, a tela de
computador com câmera ao vivo onde, em várias janelas, pessoas de todos os
cantos discutem ao mesmo tempo, é também sua imagem mais emblemática. Atom
Egoyan nos oferece muitos pontos-de-vistas ao mesmo tempo - e é humanamente
impossível se filiar a todos eles.