Francis Ford Coppola quase foi demitido em O
Poderoso Chefão, teve um enfarte em Apocalipse Now e quase foi
à falência antes de Drácula de Bram Stocker. A presença da morte, ainda
que uma morte simbólica, sempre marcou o cineasta. Agora, onze anos depois de
seu longa-metragem anterior, O Homem que Fazia Chover, Coppola volta
à ativa com Velha Juventude (Youth Without Youth, 2008),
um filme sobre o medo de morrer.
Ou um projeto que, diante da certeza da morte, fala da ânsia de completar um
testamento - tema que inevitavelmente se associa a Coppola, que faz 70 anos
em 2009, cujo cinema áureo ficou pelos anos 70 e cujo legado sobrevive
pelas mãos de seus filhos também cineastas, Sofia e Roman. O que deixar para
o mundo? É isso que assombra o protagonista do filme, Dominic Matei (Tim
Roth), um estudioso da linguagem humana que, com 70 anos recém-completos,
talvez não viva a tempo de finalizar o seu único livro.
Acontece que Dominic ganha uma "prorrogação" dos céus. Ao desembarcar na sua
cidade natal, na Romênia, onde planejava cometer suicídio, ele é atingido por
um relâmpago. A descarga elétrica rejuvenesce Dominic em uns 30 anos - como
os médicos descobrem assim que a pele e os cabelos, derretidos pelo raio, se
reconstituem. Velha Juventude é uma adaptação do conto homônimo do estudioso
de religião e escritor romeno Mircea Eliade (1907-1986), por sua vez
inspirado em uma fábula romena do século 19. Há na história, porém, ecos de
H.G. Wells - mesmo porque o rejuvenescimento é, na prática, uma máquina
do tempo para o protagonoista.
Isso fica claro quando, a certa altura do filme, depois de fugir incessantemente
de cientistas nazistas na época da Segunda Guerra, o romeno ganha a oportunidade
de desfazer uma burrada amorosa da sua juventude "anterior", quando trocou a
paixão de uma mulher pela paixão dos estudos. Velha Juventude tem suspense
de espionagem, tem ficção científica e tem muita filosofice, mas é o hollywoodianíssimo
tema da segunda chance que liga todo o resto.
Coppola é fiel não só a essa tradição, mas à sua própria. O visual de Velha
Juventude, seja na composição do enquadramento ou na iluminação, remete
automaticamente ao seu trabalho com o diretor de fotografia Gordon Willis
em O Poderoso Chefão, particularmente no uso barroco das sombras como
muleta dramática (aqui, a cargo do diretor de fotografia Mihai Malaimare
Jr.). Barrocos são também os efeitos, desde as fusões de imagens até
os giros de 90 e 180 graus que Coppola dá na passagem de um plano a outro -
com o inestimável apoio de seu montador de longa data, Walter Murch -
para amplificar o impacto.
E aí a coisa envereda pela questão do gosto. Coppola filma como se ainda estivesse
nos anos 80, narrativa e estilisticamente falando. Fala de rosas vermelhas e
sânscrito. Não é o tipo de filme que teria apelo hoje em dia, não fosse pela
volta do ícone. No fim das contas, porém, talvez o nome já baste - mesmo porque
o cineasta está aqui se espelhando em Dominic Matei, tratando da impossibilidade
da vida eterna e se contentando com mais uma pequena vitória sobre a morte.
Depois deste, Coppola já tem mais um filme a caminho. Velha Juventude
é o testamento que se nega a sê-lo.
Veja
clipes