Pergunte a qualquer fã de Michel Gondry, Charlie
Kaufman e Spike Jonze quais seus filmes favoritos
e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança e Quero Ser John
Malkovich devem estar entre eles. Pergunte a esses mesmos fãs quais
seus atores norte-americanos preferidos e o nome de Paul Giamatti
deve aparecer em posição privilegiada na lista. Pois Eu
Ela e Minha Alma (Cold Souls, 2009), filme também
conhecido como Tráfico de Almas, parece ter sido especialmente
desenvolvido para esse público.
Giamatti faz o papel de sujeito melancólico e emocionalmente instável
de sempre, com a diferença que desta vez ele "interpreta" a si mesmo. A
história começa com o ator vivendo outro difícil famoso:
Tio Vanya, do clássico homônimo de Anton
Tchecov (1860-1904). O fracassado ícone teatral potencializa
em Giamatti seus piores sentimentos de inadequação e ele começa
a se desesperar faltando poucas semanas para a estreia da montagem.
A solução não tarda... o agente do ator indica a ele um
serviço de "remoção e armazenagem de almas".
Na clínica do Dr. Flintstein (o sempre excelente David Strathairn)
remove o peso do passado ao retirar 95% da alma do paciente. Ficam as memórias,
mas vão embora todas as angústias. O problema é que sem
angústias não existe Tio Vanya - e Giamatti, irreconhecível
pela própria esposa (Emily Watson) depois da operação, decide retomar o
espírito removido. Seria tudo muito simples, não fosse o fato
da alma ter sido roubada por traficantes russos...
A estapafúrdia história se aproveita de inúmeros elementos
dos filmes citados acima. A diretora e roteirista estreante Sophie Barthes
simplesmente não esconde as inspirações. Mas ao emular
os famosos cineastas independentes, cria suas próprias pérolas.
Não há como não gargalhar do surtado Giamatti encarando tudo isso com grave seriedade e, com a mesma expressão do cara que tomou
vinho cuspido em Sideways, perguntando: "O que diabos minha alma
está fazendo na Rússia". E na viagem dele ao país,
Barthes ainda encontra um espacinho para outro tipo de melancolia, a romântica
de Sofia Coppola em Encontros e Desencontros.
Um destilado quintessencial indie, bem-humorado, muito bem filmado (a fotografia
de Andrij Parkeh é excelente) e dramático na
medida. Mais que isso, um dos melhores trabalhos de Giamatti, que "interpreta"
sensacionais espectros de si mesmo. Só a cena em que Vanya é interpretado
malandramente, sem o peso da alma, já valeria o ingresso. Se você
se encaixa entre o grupo descrito lá no primeiro parágrafo, não
perca.
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