Cada vez mais, as personagens femininas de quadrinhos
ganham roupagem erótica. Formas avantajadas, roupas minúsculas e um ar provocante
já fazem parte dos adereços de uma infinidade delas. Como era de se esperar,
as adaptações para o cinema seguem o mesmo caminho.
Chegou aos cinemas em agosto de 2004,
Mulher-Gato,
uma nova versão para a mais sensual vilã do universo de Batman. Halle Berry,
ganhadora do Oscar de Melhor Atriz ano retrasado em A
última ceia, aceitou a missão de viver a felina no cinema.
O filme, no entanto, só alcançou a terceira colocação no Box office,
faturando 17,16 milhões de dólares. Foi um banho de água fria para
os executivos da Warner. A imprensa especializada está prevendo que a produção
será o fracasso do ano. Quase uma morte anunciada, esse resultado está longe
de ser inesperado. Os realizadores cometerem vários equívocos: mudaram as
origens da personagem, não apresentaram supervilão algum como antagonista
e vestiram Berry com trajes extraídos de uma boate de strippers.
Pelo visto, alguns executivos de Hollywood
ainda não aprenderam a lição. Toda a adaptação de personagens oriundas dos
comics que não foi fiel à sua fonte de inspiração fracassou. Mesmo
assim, muitos deles insistem em mudar propostas testadas e consagradas nas
páginas das HQs e acabam metendo os pés pelas mãos. No final, o projeto rola
ladeira abaixo rumo à geladeira das boas idéias mal-aproveitadas e emperra
futuras investidas de outros heróis dos quadrinhos.
Neste novo filme, a Mulher-Gato é Patience Price,
uma artista gráfica que descobre um terrível segredo da indústria de cosméticos
onde trabalha e é assassinada. Após um estranho fenômeno, é ressuscitada pelo
deus-gato egípcio Mao, que a torna uma heroína superpoderosa, dotada
dos sentidos aguçados. Assim, assume uma nova identidade para combater os
malignos planos de seus antigos empregadores, Laurel e Georges.
Esse samba do crioulo doido não tem nada a
ver com a coadjuvante do Batman que todos conhecemos. Tendo sido criada por
Bob Kane e Bill Finger em 1940, na revista
Batman 1, Selina Kyle apresentou-se, de início, como uma golpista
especializada em disfarces. Dez anos depois, sua origem foi apresentada aos
leitores. Não era apenas uma vilã, mas também uma aeromoça. Após um acidente
que resultou em amnésia, debandou para o mundo do crime. No entanto, esta
foi apenas a primeira versão de seus primórdios, mas não a única, se bem que,
ao longo dos anos, roteiristas e desenhistas jamais se descuidaram de suas
características básicas.
A Mulher-Gato é uma personagem ambígua, talvez
aí esteja o segredo do interesse que desperta. Equilibrando-se no tênue muro
entre a lei e a contravenção, ela se faz apaixonante. O Cavaleiro das Trevas
que o diga.
Por um período, até se redimiu e engrossou a fileira
dos mocinhos, tornando-se proprietária de pet shop e informante da
polícia. Perdeu o apelo e o interesse dos leitores. Após uma falsa reportagem,
decidiu voltar à criminalidade. Invadiu a chefatura e projetou um enorme gato
no céu de Gotham City.
Na Terra-2, mundo paralelo do Universo DC, no qual
heróis e vilões surgiram por volta da Segunda Guerra Mundial, a vilã casou-se
com seu antigo inimigo, o Homem-Morcego, e teve até uma filha, a Caçadora.
Nos anos sessenta, a rainha dos felinos ressurgiu com
força total no seriado Batman.
Foi quando se perpetuaram os traços mais marcantes e consagrados de sua personalidade.
Desde então, ganhou status de símbolo sexual e ascendeu ao pedestal de ícone
da cultura pop. Acompanhando a onda feminista daqueles tempos, tornou-se mais
sexy, dominadora e astuta. Mulher livre, de corpo perfeito e dona de um esconderijo
que mais parecia um quarto de motel, ela personificava o fascínio que o crime
sempre exerceu sobre homens e mulheres.
Três atrizes interpretaram a vilã: Julie Newmar, a mais perfeita,
que ainda provoca euforia em quarentões; Lee Meriwether, miss América,
que a interpretou no longa que antecedeu o seriado (resenha
aqui); e Eartha Kitt, cantora e a primeira atriz negra a representar
a personagem.
Nos anos 80, Frank Miller reformulou suas origens.
Fez dela uma prostituta de cabelos curtos, num figurino dominatrix.
Em DK2,
a continuação do famoso Cavaleiro
das Trevas, trouxe de volta a menina que anteriormente assumira o
papel de Robin, trajando-a como uma jovem Mulher-Gato.
Em Batman,
o retorno (1992), foi a vez de Michelle Pfeiffer vestir o modelito
justo. Desta vez, jogada de do alto de um edifício e lambida por inúmeros
felinos, virou a vilã, com o direito a sete vidas.
Sessenta anos após sua primeira aparição, a Mulher
Gato ganhou própria publicação. Nesta, era revelado que, depois da morte do
pai alcoólico, aos doze doze anos, ganhou experiência realizando pequenos
furtos. Já adulta, tornou-se prostituta a fim de colher informações sobre
clientes para futuros roubos. Especializou-se em artes marciais, defendendo
fracos e oprimidos e teve direito a seu próprio código de ética.
Ao contrário de outros vilões do Batman, a Mulher-Gato
não mata. Chega até mesmo a ajudar o Homem-Morcego. Não fosse sua inclinação
pelo roubo de jóias, seria uma ótima companheira de caverna. É linda e habilidosa,
veste-se de maneira provocante, com botas de salto alto, chicote e luva de
garras.
Talvez tenha sido essa imagem recheada de fetiches
que enfeitiçou excessivamente os criadores desta nova aventura da criminosa
felina, conspurcando o resultado final da obra. Apegaram-se demais ao visual
e deram pouco valor à substância.