Em nove anos de existência o Omelete teve a honra de
conversar com lendas vivas das histórias em quadrinhos, como Alan
Moore, Frank Miller e Neil
Gaiman. Agora, em uma entrevista exclusiva com Dave Gibbons,
fechamos o ciclo de quadrinistas que revolucionaram o gênero dos super-heróis
e a linguagem da Nona Arte na década de 1980. Gibbons, afinal, ilustrou
Watchmen,
graphic novel que Moore escreveu, lançada poucos meses depois
de Batman
- O Cavaleiro das Trevas, de Miller.
Nossa conversa com Gibbons foi a última de sua concorrida agenda em
Los Angeles em meados de fevereiro para a divulgação de Watchmen
- O Filme. Cansado, mas muito empolgado com a adaptação
e em falar de sua carreira e trabalhos, o ilustrador começou a conversa
interessado no significado do nome Omelete, que ele já conhecia de duas
ocasiões.
Dave Gibbons: Foram vocês que publicaram a crítica
de Watchmen ontem, não?
Sim! Mas como você sabe disso? O site é em português!
Eu recebo links de coisas legais. Já conhecia o Omelete dos trailers
de Watchmen que vocês divulgaram.
Essa é uma enorme honra!
Vejo no Watchmencomicmovie.com.
Conheço o editor do site. Ele é muito profissional.
E tem um ótimo site! Mas vamos lá: Quando você
assistiu ao filme?
Eu vi uma versão preliminar do filme em agosto, logo depois da
San Diego Comic-Con. Estava inacabada, com efeitos especiais ainda em andamento,
sem trilha sonora e a edição estava incompleta. Mas vi a versão
final ontem, na sessão de imprensa à noite.
Eu estava nessa sessão. Lotada!
Estava lotada, sim. Fiz questão de ir porque ontem eu tive entrevistas
com a imprensa e senti que precisava conhecer a versão final, afinal,
todo mundo já tinha visto o filme. Achei loucura o que eu estava fazendo,
falando do filme sem ter visto - basicamente estava comentando o omelete tendo
visto somente as cascas dos ovos, se me permite usar essa palavra. Acho que
ninguém se preocupou com isso porque nos próximos dias teremos
a première do filme na Inglaterra e depois a aqui nos Estados
Unidos, mas eu quis ver sozinho, sem o elenco a equipe e os produtores em
volta olhando para o meu rosto, querendo saber o que eu achei. A minha única
preocupação é que eu tinha acabado de chegar da Inglaterra
e estava com um jet lag forte, então estava com medo de dormir
no filme, o que seria vergonhoso.
Comigo foi exatamente o mesmo, cheguei do Brasil, 48 horas sem dormir,
e fui ver o filme. E despertei imediatamente!
Exato! Fiquei imediatamente absorvido pelo filme. E você sabe que
um filme é bom quando esquece até onde você está. Esse
foi o efeito que ele teve comigo. Eu gostei muito.
Me lembro de você ter publicado no blog do filme que depois do
set visit você ficou sorrindo um mês. Agora que você viu o
filme, o que acha? Que ficará sorrindo quando tempo?
Pelo contrário... estou com uma sensação de tristeza.
Sabe quando você lê um livro incrível e fica com um certo
vazio quando ele termina? Esse filme de Watchmen tem sido uma jornada
tão interessante que parte de mim está triste por ele estar
pronto. Mas claro, a outra parte está sorrindo, sim! E está
sorrindo desde aquele set visit, quando tive a certeza de que o filme estava
sendo feito corretamente. E há ainda uma outra sensação,
a de alívio. Eu alardeei tanto esse filme, dizendo para quem quisesse
ouvir que seria incrível, que em determinado momento fiquei em crise.
E se não fosse? Felizmente, é! Ficou intrigante, inteligente
e bonito de ver.
Essa é talvez a maior qualidade de Watchmen, como a
história em quadrinhos faz você pensar sobre as coisas. Moral,
a sociedade... e a própria arte, em como a HQ mudou uma mídia.
E falando em mídia, lembro de você ter falado que achava a comparação
entre o cinema e os quadrinhos uma bobagem. Que as duas artes têm suas
semelhanças, mas que não dá pra comparar de verdade. Que
apesar das HQs pareceram storyboards elas não têm som ou movimento
- e que o cinema não permite que voltemos páginas pra entender
algo que passou batido antes. Mas eis que surgem agora os quadrinhos animados
e com som, inclusive um de Watchmen. O que você pensa a respeito
desse híbrido?
É estranho. A primeira vez que tive contato com isso foi quando
a DC Comics me chamou para mostrar a novidade. Minha primeira reação
foi que era até que bem feito, mas não vi relevância alguma
naquele produto. Por que fazer algo assim? Então peguei o DVD e mostrei
para amigos, criadores, gente dos quadrinhos e dos games, e todo mundo achou
a mesma coisa que eu. Só que aí eu levei pra casa e mostrei
para as minhas afilhadas adolescentes - e elas ficaram loucas. Acharam muito
legal. Aí percebi que existe um público para isso...
A geração YouTube.
Sim, uma que está habituada a informação visual
rápida. Nós não somos parte dessa geração,
mas ela está aí. Então voltei à DC e disse que
se era pra fazer, tinhamos que fazer direito, então atuei como consultor
no projeto. Até desenhei algumas coisas, para facilitar o trabalho
da produtora, que teve que recortar personagens dos cenários para animá-los.
A HQ animada acabou com seis horas de duração. E está
vendendo bem no iTunes, para ser vista em iPod e iPhone. Mas voltando à
questão da comparação, ainda acho que quadrinhos são
quadrinhos, cinema é cinema, mas tem uma outra coisa embrionária
surgindo aí no meio... Não sei bem se o formato será
esse mesmo, mas acho que ela vai se desenvolver rapidamente.
Você esteve envolvido no filme, nessa HQ... Não é
estranho trabalhar tanto em algo que você fez há quase 25 anos?
Todas as pessoas mudam tanto... deve ser como olhar para você mesmo no
passado.
Com certeza, é sim. Mas é ótimo, porque posso olhar
de maneira mais distante para esse trabalho. Sabe, quando você começa
uma história em quadrinhos sempre tem a impressão que ela será
seu maior trabalho, "o" trabalho. Não há dúvida.
Mas aí passam os dias e aquilo se torna só mais um trabalho
- e como todo trabalho você começa a criticá-lo, pensar
no que poderia fazer melhor. Aí todas as vezes que olha essa história
só enxerga os erros. Só que cinco anos depois, você encontra
esse trabalho na gaveta e pensa "caramba, isso está legal".
Esse é o estágio que vivo hoje com Watchmen. Olho para
ela e penso que não está ruim. Poderia ter feito uma ou outra
coisa melhor, mas não há o que fazer agora, certo? Mas, sim,
você está certo. Tenho essa sensação de que estou
vendo o trabalho de outra pessoa e certamente não quero fazer isso
a minha vida toda - olhar para o passado.
Alguma mudança em particular em relação à
história em quadrinhos que você gostou ou desgostou?
Eu tenho uma visão um tanto pragmática de adaptações.
Sei que alterações são necessárias e que é
impossível transportar uma obra de uma mídia para outra sem
fazer mudanças. Tendo conhecido Zack Snyder, David Hayter e Alex Tse
eu tinha enorme confiança na produção, sabia que ela
estava sendo feita com enorme preocupação com a fidelidade.
E todas as mudanças que eles fizeram me pareceram bastante acertadas.
Fiquei impressionado com a quantidade de detalhes que eles conseguiram
fazer caber em 2 horas e meia.
O paradoxo em Watchmen é que na história em quadrinhos
tínhamos espaço demais. Ela foi lançada originalmente
como uma minissérie em 12 edições. O problema é
que Alan só tinha história suficiente para 6 edições,
então começamos a povoar aquele universo com detalhes. Todas
as coisas mais lindas ali nasceram dessa necessidade de expansão. Alan,
sendo quem é, não consegue simplesmente encher linguiça,
mas começa a criar interações maravilhosas. É
isso que torna Watchmen o que é. Mas é interessante
notar como depois da expansão, de certa forma, temos agora uma retração,
para caber em um filme.
Você vai falar com Alan Moore sobre o que achou do filme?
Não vou. Mas isso é porque ele me pediu especificamente
para que não o fizesse. Nós somos amigos, mas ele não
quer saber desse filme, então vou respeitar o desejo dele. Só
o farei se ele puxar assunto.
Qual foi sua participação no filme e o que você
achou do processo todo?
Eu sei que estou me repetindo nas entrevistas, mas só posso dizer
que o processo todo foi "surreal", quase um sonho. Ver o que eu
imaginei na minha cabeça ali na minha frente foi mesmo surreal. Eu
gostaria de ter mais adjetivos para descrever essa sensação,
mas meu negócio é desenhar. Minha participação
foi como consultor, então não fiz muita coisa. Sobre o filme,
eu adorei. Fiquei muito honrado que eles tenham recriado meu trabalho com
tantas minúcias e pequenos detalhes. O filme segue a ideia da graphic
novel, onde tudo é proposital e tem significado.
O que você gostou mais?
Há duas coisas. A primeira é a reunião dos Combatentes
do Crime. Eu estava lá quando essa cena foi rodada e foi meio chocante
e real. Entrei na sala e senti cheiro de charuto, os atores vieram me cumprimentar,
falando como os personagens... foi incrível ganhar um tapinha nas costas
do Comediante. Outra coisa que foi inacreditável pra mim foi entrar
na Nave-Coruja. Quando eu era criança gostava de construir modelos
em escala. Depois, me formei engenheiro, então eu não apenas
desenhei a nave, mas a projetei de certa maneira - sabia onde estavam os motores,
como era o interior, sabia tudo. Então entrar nela, segurar os controles...
Se existe um objeto no mundo que eu desejo é aquela nave. Ela deveria
ficar no meu quintal. Ahahahaha.
Você tem uma relação de uma vida inteira com o
Coruja, não?
Sim, é um personagem que criei quando era pequeno, o Coruja original.
O visual dele na história em quadrinhos é exatamente o que eu
desenhei quando menino. Então imagine o que sinto vendo-o de carne
e osso...
Você tem vontade de continuar trabalhando no cinema? Você
embarcaria em uma adaptação da saga Martha Washington
que você criou ao lado de Frank Miller?
Olha, depois de passar tanto tempo revisitando Watchmen, por
que não revisitar Martha Washington? As duas obras são
tão diferentes em tantos aspectos que eu não me importaria de
trabalhar no filme de Martha. Mas eu acho que minha relação
com o filme seria bem diferente da que foi com este. Pra começar, Frank
e eu somos donos de Martha Washington, diferente de Watchmen
- que não pertence a Alan e eu -, então teríamos
muito mais força em um eventual filme de Martha e obviamente
faríamos muito mais dinheiro. Mas é uma discussão que
ainda não começou de verdade. De qualquer maneira temos a edição
completa da saga, The Life and Times of Martha Washington in the 21st
Century, que sai agora em 4 de julho, que pode criar certa expectativa
por um filme... e Frank tem ótimos contatos em Hollywood agora, então
vamos ver o que acontece.
Você conversou com Frank a respeito?
Nós somos amigos e nos falamos, mas ele anda mergulhado em Hollywood
ultimamente... Não o tenho visto. Mas somos amigos há tanto
tempo que sempre retomamos nossas conversas do ponto em que pararam há
seis meses. Tivemos, sim, uma discussão sobre o filme de Martha
Washington no meio do ano, em um bar em San Diego durante a Comic-Con,
mas chegou a hora de conversarmos de novo. Assim que a turnê de divulgação
de Watchmen terminar essa é uma prioridade minha, procurá-lo
para conversar.
No que você está trabalhando agora?
Eu ainda não posso comentar nada a respeito, mas escrevi um projeto
para a DC Comics. Não é quadrinhos, é algo diferente.
Estou sob embargo e só posso dizer que é algo pouco usual.
Você acompanha o trabalho dos ilustradores brasileiros na DC?
Eu troquei alguns emails com Ivan Reis. O trabalho dele é fenomenal,
ele é um ilustrador fabuloso. Gabriel Bá é outro que
eu gosto. Os quadrinhos se tornaram uma mídia internacional, não
há mais barreiras geográficas nas HQs. Eu me lembro de ter tido
uma epifania sobre isso quando fui a uma convenção de quadrinhos
em Lucca, na Itália, no começo dos anos 80. Lá pude ver
o trabalho de ilustradores locais incríveis, gente de quem eu nunca
havia ouvido falar antes. Na América do Sul o entusiasmo é o
mesmo. Já fui a convenções na Argentina e foram incríveis.
Os quadrinhos se tornaram globais. É ótimo.
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