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Crítica

A Sorte em Suas Mãos | Crítica

Daniel Burman faz seu filme mais fácil, num momento difícil

Atualizada em 18.11.2016, ÀS 18H02

Cineasta argentino da atual geração que mais tem filmes lançados no Brasil, de Esperando o Messias (2000) e O Abraço Partido (2004) a Ninho Vazio (2008) e Dois Irmãos (2010), Daniel Burman realizou seu longa mais recente, A Sorte em Suas Mãos (2012), com coprodução brasileira e apoio da Ancine. Seu cinema continua, porém, profundamente portenho.

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Se há uma mudança, é primeiro no tom, que não deixa a melancolia de lado mas se aproxima um pouco da comédia romântica. Em sua estreia como ator, o músico uruguaio Jorge Drexler interpreta Uriel, divorciado e pai de dois filhos, que viaja a Rosario para um torneio de pôquer, seu hobby, e para fazer uma operação de vasectomia. Lá ele reencontra Gloria (Valeria Bertuccelli, de Um Namorado para Minha Esposa), ex-namorada que desperta os instintos monogâmicos que o galinha Uriel imaginava ter superado.

O que há de mais portenho no cinema de Burman, o sentido de coletividade, a partir da comunidade judaica da capital, que pode ser ao mesmo tempo claustrofóbico e acolhedor, continua igual. Assim como em As Leis de Família e os demais longas do diretor, temos filhos que lutam com o peso da herança e da cobrança comunitária: Uriel trabalha na financeira que era de seu pai, "um homem de muitos amigos", e Gloria, que mal se comunica com a mãe (que ironicamente é radialista), reavalia sua vida a partir do momento em que fica órfã do pai.

O peso da História, que para Burman se confunde com o peso da herança, hoje em dia soa maior. O momento econômico pelo qual a Argentina passa, com a pressão cambial, a volta dos doleiros e o clima de cada-um-por-si, dá mais gravidade a A Sorte em Suas Mãos, um filme em que o dinheiro - a própria imagem do dinheiro, na financeira, no contador de notas/cartas, no cassino - tem papel central. "O dinheiro corrompe?", é a questão que Burman se faz, enquanto filma Uriel despersonalizado no pôquer, disfarçado com óculos escuro e boné, um homem sem identidade (metáfora que o médico do protagonista depois didatiza textualmente).

Essa opção por facilitar as simbologias (numa cena os personagens literalmente se fecham em bolhas) trivializa um pouco as coisas, mas se o gás do filme é um tanto limitado, talvez seja principalmente porque, pelo próprio histórico do diretor, nós já saibamos a resposta daquela questão: o dinheiro pode até corromper, mas o bem coletivo prevalece.

Numa sociedade do sucesso como a brasileira, em que os filmes mais populares, com suas mulheres empresárias e seus milionários trapalhões, invariavelmente associam dinheiro com felicidade (acho que podemos adotar o termo "tecnochanchada" a essa altura do campeonato), A Sorte em Suas Mãos é um alienígena. Suas cenas de cantoria memorialista, suas três gerações de portenhos unidos no sing-along, podem parecer cafonas apenas, mas elas carregam uma visão do mundo que tem muito a acrescentar à nossa.

Facilidades do cinema de gênero à parte, então, que venham entre Brasil e Argentina mais coproduções como esta.

A Sorte em Suas Mãos | Cinemas e horários

Nota do Crítico

Bom
Marcelo Hessel

A Sorte em suas Mãos

La Suerte en tus Manos

12 Comédia
Duração: 110 min
Data de lançamento: 23 de agosto de 2013
Onde assistir:

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