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En Guerre, filme francês sobre lutas sindicais, pode dar o prêmio de direção de Cannes a Stéphane Brizé

Com atores não-profissionais ao lado do astro Vincent Lindon, longa simula linguagem documental ao filmar manifestações
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Rodrigo Fonseca/Reprodução
 - Rodrigo Fonseca/Reprodução

Filmes sobre causas sociais já renderam mais do que prêmios e prestígio ao cinema francês no passado: nos idos de 1968, ficções sobre a classe operária vendiam milhões de ingressos. Essa memória de sucesso de décadas atrás volta à tona agora, no 71º Festival de Cannes, diante do impacto que o drama En Guerre, em disputa pela Palma de Ouro, causou no evento. 

"O fato de a mídia não dar atenção a certas tragédias da economia, como é o caso do desemprego em massa, não significa que o estrago moral e social da desigualdade passe incólume e indolor", disse Stéphane Brizé, ao lado do ator Vincent Lindon.

Há três anos, os dois saíram ovacionados de Cannes com O Valor de um Homem, que deu a Lindon o prêmio de melhor ator. O tema era o mesmo: os saldos da crise econômica para quem não tem trabalho. Agora, En Guerre, experiência narrativa ainda mais explosiva, não apenas azeita a dobradinha deles como pode render troféus aos dois. Durante uma coletiva de imprensa, a própria mediadora do debate falou: "acho que Lindon ganha de novo". Todo mundo na cidade anda de acordo com ela, mas há quem aposte alto no prêmio de direção para Brizé.

Apesar do favoritismo estar em torno do thriller BlackKklansman, de Spike Lee, este tenso relato sobre lutas sindicais na Europa pode virar o jogo na Croisette. O que eles fizeram parece um documentário, pelo hiperrealismo das passeatas de uma célula operária em conflito com seus patrões. "Falam que a gente usou o jornalismo como referência, mas não é bem assim: eu critico o jornalismo, incluindo repórteres em ação na minha narrativa. Uso mesmo é a linguagem documental, pois é ela que, hoje, flagra temas para os quais o jornalismo nem sempre investe", disse Brizé ao Omelete.

Na montagem, ele buscou dar à narrativa um ritmo nervoso, típico de filmes de ação, que evoca cults do cinema políticos dos anos 1960, como Z (1969), de Costa-Gavras.

"Fizemos um filme pautado pela cólera contra a injustiça, mesclando não-atores a profissionais, com Lindon buscando verdade na representação dos conflitos do mercado de trabalho", disse o diretor, encarado hoje como a promessa de renovação do cinema social francês.

Na trama, Lindon vive o sindicalista Laurent Amédéo, que luta para mediar a relação entre seus colegas de fábrica com patrões alemães interessados em fechar a empresa. "Diante do grau de exclusão no mundo do trabalho hoje, não posso tratar essa massa desempregada da França como se fosse desvalida, coitada. Era necessário tratá-la com respeito e muita humanidade, mas sem vitimizá-la", disse Lindon.

Nesta quarta-feira (16), Cannes vê o desenho animado japonês Mirai, de Mamoru Hosoda, na Quinzena dos Realizadores. Na trama, um garotinho viaja no tempo com uma versão juvenil de sua mãe.

Na mostra oficial, a quarta também é dia de John Travolta: o astro fala sobre sua carreira em uma masterclass sobre interpretação que teme lotação no Palais des Festivals. Esta noite, o ator apresenta a sessão dos 40 anos de Grease: Nos Tempos da Brilhantina, na seção Cinéma de la Plage.

Ele tem ainda um filme inédito em projeção, Gotti, de Kevin Connolly, sobre o chefão mafioso John Gotti. O longa entrou na seleção de Cannes aos 45 minutos do segundo tempo, na noite de terça-feira, e alcançou um bom boca a boca acerca do desempenho do eterno Tony Manero. Fala-se aqui em indicações ao Oscar para ele.
Cannes termina no dia 19.

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Stéphane Brizé
18 de Outubro de 1966 (51 anos), Rennes, France
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