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Crítica

Amor, Drogas e Nova York | Crítica

Ben e Josh Safdie continuam buscando ordem no caos - agora em um amor de perdição

Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H37

De todos os cineastas alternativos dos EUA influenciados pelo cinema de John Cassavetes, poucos conseguem reproduzir tão bem o sentido de ordem no caos urbano quanto Ben e Josh Safdie.

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Assim como os outros dois longas dos irmãos, The Pleasure of Being Robbed (2008) e Traga-me Alecrim (2009), Amor, Drogas e Nova York (Heaven Knows What, 2014) também acompanha novaiorquinos com uma rotina determinada pelo acaso. Harley (Arielle Holmes) e Ilya (Caleb Landry Jones) estão, porém, ainda mais à margem social do que os protagonistas anteriores dos Safdies: são dois sem-teto junkies que vivem de pequenos favores, entre outros viciados em heroína, um dia após o outro, em Manhattan.

É como um boy-meets-girl ao contrário que começamos a ver Heaven Knows What - algo como "só Deus sabe" (título com o qual o filme exibido no Brasil no Festival do Rio em 2014), o que sugere que certas coisas, como o amor ou o ódio, não têm explicação. Harley e Ilya se odeiam, carregam uma relação doentia que já parece durar anos, entre ameaças de suicídio e outros parceiros eventuais, mas como todos os personagens do filme, que se cruzam a cada esquina como coincidências de divina providência, não conseguem nunca se distanciar um do outro.

Ben e Joshua filmam esse amor de perdição com seu já habitual talento para o naturalismo, com câmera na mão, sempre pronta para registrar o que não fora ensaiado, e herdando também de Cassavetes as lições de como misturar elenco profissional e não-profissional numa produção de espírito improvisado, amador, de modo a que tudo pareça o mais próximo possível da realidade em si.

Nesse sentido, Amor, Drogas e Nova York não se diferencia muito dos dois filmes anteriores dos irmãos. É na trilha sonora, porém, e não só na escolha de personagens ainda mais marginais, que os Safdies parecem dispostos a testar limites. A música pontua os momentos mais sanguíneos e angustiantes do que Harley sente em relação a Ilya, e ajuda a criar empatia por esses personagens que parecem virar o rosto sempre que a câmera tenta se aproximar.

Numa época em que o termo "estética documental" perdeu um pouco o significado - justamente por significar tantas coisas diferentes - os Safdies tentam resgatar um senso de organização do caos por meio do cinema. Seus filmes beiram o melodrama, não têm nada de distantes ou isentos, mas são concebidos e encenados como um registro filmado da realidade.

Então não faz muita diferença, para o espectador, saber ou não que Amor, Drogas e Nova York se inspira nas experiências de Arielle Holmes - que foi incentivada pelos diretores a escrever um livro de memórias, o ainda inédito Mad Love in New York City. O poder que o longa tem de cativar vem da mise-en-scène, da capacidade de organizar o mundo em imagens, e se Arielle Holmes demonstra ser uma ótima atriz, reencenando sua própria história, em boa medida é porque encontrou em Ben e Josh Safdie um interesse, um olhar.

Nota do Crítico

Excelente!
Marcelo Hessel

Amor, Drogas e Nova York

Heaven Knows What

14 Drama
Publicadora: Ronald Bronstein, Ben Safdie
Duração: 94 minutos min
Direção: Ben Safdie, Joshua Safdie
Elenco: Arielle Holmes, Caleb Landry Jones, Eleonore Hendricks, Yuri Pleskun, Buddy Duress, Necro
Data de lançamento: 15 de outubro de 2015
Onde assistir:

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