Street Fighter: A Última Batalha | Crítica do filme baseado no game
Raul Julia tenta, quase consegue, mas nem a nostalgia salva o filme de Van Damme do teste do tempo
A década de 1990, com parte do caminho aberto nos anos 1980, foi um grande laboratório de adaptações da cultura pop em Hollywood. Entre Mestres do Universo, Batman e As Tartarugas Ninja, a indústria tentava descobrir como transformar personagens conhecidos em novas máquinas de fazer dinheiro. Com os games, porém, os primeiros experimentos produziram mais desastres do que acertos: Super Mario Bros., Double Dragon e o famigerado Street Fighter: A Última Batalha, com Jean-Claude Van Damme como Guile, ajudam a explicar a desconfiança que acompanharia essas produções por décadas. Mortal Kombat logo mostraria que havia alternativas, mas o filme de 1994 permanece como um recorte preciso de certa Hollywood daquele período: ávida por se apropriar de universos populares, desde que pudesse simplificar suas particularidades culturais e acomodar tudo em uma fórmula familiar.
É justo reconhecer que Street Fighter tem o mérito de tentar construir uma história a partir dos personagens e conflitos do clássico da Capcom. Existe ali uma preocupação em reunir aquele universo, ainda que a solução seja reorganizá-lo ao redor de uma aventura militar comandada pelo americano salvador da pátria. Guile assume o protagonismo, Ryu e Ken viram coadjuvantes e a diversidade de estilos, origens e motivações dos lutadores acaba subordinada à guerra contra Bison. É como se Hollywood tivesse recebido um fliperama e devolvido um quartel (o que não deixa de ser parte da história em si). O problema não é exigir fidelidade absoluta a um jogo cuja narrativa deixava tanto espaço para a imaginação, mas perceber como essa liberdade resulta em algo mais genérico. Antes de abraçar o absurdo, o filme insiste em fabricar heroísmo para Guile e carisma para Ryu, Ken e Chun-Li, sem encontrar tempo ou talento para sustentar nenhum dos dois.
Mesmo deixando essa discussão de lado, aquilo que deveria ser a prioridade, a execução do filme, fica tão abaixo do esperado que nem a nostalgia mais benevolente consegue relevar. As coreografias de luta são um terror: falta impacto, ritmo e, principalmente, personalidade a confrontos entre personagens definidos justamente pela maneira como lutam. A presença de Van Damme torna tudo mais difícil de aceitar, porque O Grande Dragão Branco já havia demonstrado o que ele podia oferecer quando o cinema se interessava por seus movimentos. E pensar que, pouco mais de quatro anos depois, em 1999, Matrix chegaria aos cinemas com uma compreensão tão superior de como filmar corpos em ação só amplia o constrangimento. Não se trata de cobrar de Street Fighter a revolução das Wachowski, mas o básico: uma luta que justifique o nome estampado no pôster. Entre tiros, explosões e golpes sem peso, quase nada se sustenta.
O filme realmente encontra alguma graça quando se entrega à galhofa que emana do maravilhoso M. Bison de Raul Julia. Sua caricatura de um ditador megalomaníaco tem uma convicção que falta ao restante do elenco: ele entende o tamanho do absurdo e interpreta cada delírio de poder com a solenidade de quem está fazendo Shakespeare. Ao seu redor, Street Fighter chega mais perto da comédia descompromissada que poderia ter sido desde o início. Isso aparece sobretudo no terceiro ato, quando a obrigação de construir uma aventura militar dá lugar a duplas e trios se enfrentando, mudanças de lado e situações inesperadamente engraçadas. Honda e Zangief brigando sobre uma maquete, com direito a efeitos sonoros que remetem a Godzilla, são o melhor exemplo: uma homenagem à tradição dos monstros gigantes e do tokusatsu que finalmente encontra diversão naquele universo cartunesco. São momentos em que o filme funciona porque assume a própria proposta, e não simplesmente porque seria “tão ruim que fica bom”.
Há ainda uma camada brasileira nessa memória. Para quem conheceu Street Fighter nas reprises da TV aberta, a dublagem emprestava personalidade e presença a personagens que, no original, tinham muito pouco a oferecer. Rever o filme é também separar o carinho por aquela experiência da qualidade do que estava na tela, e a distância entre as duas coisas é grande. Street Fighter não se sustenta como ação ou aventura, e seus lampejos de comédia não bastam para salvar o conjunto. Permanece, porém, como um registro revelador dos primeiros passos dos games em Hollywood, quando reconhecer um figurino parecia mais importante do que compreender o prazer de jogar. Querendo ou não, esses experimentos ajudaram a pavimentar o caminho para o que veio depois, tanto pelo que tentaram quanto pelos erros que deixaram de herança. A nostalgia preserva a lembrança. Raul Julia preserva algumas cenas. O restante continua difícil de defender.
Street Fighter: A Última Batalha
Street Fighter
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