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Em Pedaços | "A pior guerra do mundo contemporâneo é a paranoia", diz diretor Fatih Akin

O premiado cineasta teuto-turco fala sobre o drama com Diane Kruger sobre fantasmas do neonazismo
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Ganhador do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, laureado antes em Cannes com o prêmio de Melhor Atriz, Em Pedaços (In The Fade em inglês), drama político alemão com Diane Kruger afogada em luto pela perda do marido e do filho, estreia nesta quinta-feira (15) no Brasil na esteira da consagração mundial de seu diretor, Fatih Akin.

Embora tenha nascido em Hamburgo, há 44 anos, o cineasta abraçou sua descendência turca como uma bandeira ética e estética, mesmo quando filma em solo germânico. Conflitos multiculturais e xenofobia são os temas centrais de sua obra, revelada em 2004 com um Urso de Ouro por seu trabalho na direção de Contra a Parede - para muitos, sua obra-prima. No esforço para transpor o canteiro do circuito autoral e dialogar com plateias maiores, das salas de exibição comerciais, ele foi buscar o apelo do carisma de Diane e de um assunto mais inflamado: a existência de células neonazistas na Alemanha.

Neste novo longa-metragem, Akin flagra o preconceito contra imigrantes ao sugerir as causas da explosão que mata o marido de sua protagonista, Katja (Diane). Ele vinha da Turquia e cometeu um crime em seu passado. Mas mudou de vida... ao lado dela. A morte dele e do filho do casal espelha a tensão com o povo turco em terras germânicas e sublinha a onda de intolerância europeia. Nesta entrevista dado ao Omelete na França, o diretor faz um balanço da trama e do continente onde ela se passa. 

Omelete: Há quem defina Em Pedaços como história de vingança. Que revanchismo há nele?

Fatih Akin: Existe algo mais significativo do que a vingança neste filme: é o sentimento de se reconhecer pertencente a algo, de fazer parte de um grupo. Katja vem de um passado de loucuras mas aceita o amor como um caminho de transcendência. O amor é um marido apaixonado e um filho carinhoso. Buscar os resquícios desses dois e honrar o que eles foram é o norte dela após uma tragédia que a devasta. Não quero que este filme seja entendido como um manifesto do ódio e sim como uma triagem dos desafios que o ódio nos traz.
 
Omelete: O que gera o ódio no mundo em que o senhor vive, parte alemão, parte turco?  
Fatih Akin: O medo. É ele que nos deixa em estado de sítio, em vigília. A pior guerra do mundo contemporâneo não é aquela em que helicópteros atiram bombas em inocentes, é, sim, a guerra da paranoia, da desconfiança, do descrédito no próximo.   
 
Omelete: O que Diane deu à figura de Katja? 
Fatih Akin: Diane é muito mais do que uma estrela internacional: ela é uma das mais consistentes atrizes de nosso tempo. É alguém que pensa sobre o mundo à nossa volta e se deixa contagiar pela realidade ao nosso redor. E é essa reflexão global que ela faz o que dá mais profundidade à figura de Katja. Diane permitiu que eu construísse um arquétipo de mãe capaz de tudo para honrar a memória do filho.
 
Omelete: Há onze anos, ao receber o prêmio de Melhor Roteiro em Cannes por Do Outro Lado (2007), o senhor comentou que a realidade do povo turco estava ameaçada. Chegou a dizer: "Unidos ficamos de pé; separados, caímos". O que mudou?
Fatih Akin: Ainda existem conflitos internos na Turquia, mas o caos maior e mais grave está na diáspora de povos como o meu pelo mundo... um mundo xenófobo, que não tolera diferenças culturais. O maior obstáculo da paz é a intolerância. E, politicamente, o terror acabou sendo institucionalizado como desculpa para conflitos que poderiam ser resolvidos na diplomacia, na união. 
 
Omelete: O quanto o sucesso de Em Pedaços, com 11 prêmios internacionais e uma bilheteria de U$ 4 milhões só em solo europeu, colabora para o êxito do cinema alemão? 
Fatih AkinA cultura audiovisual tem muitas formas, muitas vitrines e muitas tendências, dentro de uma só nação. O importante é fazer com que elas convivam com harmonia. Somos uma só família no cinema, na TV, nas plataformas de VOD. O que eu busco no contexto atual do cinema alemão é explorar o multiculturalismo.
 
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Fatih Akin
25 de Agosto de 1973 (44 anos), Hamburg
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