Lá em meados dos anos 1990, quando assumiu o manto do Batman, Val Kilmer era indiscutivelmente um dos homens mais belos de Hollywood. Não à toa, Oliver Stone o escolheu para viver Jim Morrison, famosamente um roubador de corações, em The Doors. E, não à toa, Joel Schumacher estava de olho nele quando lhe entregaram as rédeas da franquia do Homem-Morcego - um dos elementos frequentemente ignorados ou subestimados sobre a mitologia do Batman, afinal, é que ele precisa ser um galã, um jovem herdeiro bilionário que se torna o menino de ouro dos paparazzi, uma espécie de Kardashian de Gotham City, para encobrir suas atividades noturnas como o vigilante que tenta limpar as ruas da metrópole.
Faz parte do show dele, e Kilmer era o candidato perfeito para performar esse show - sem falar naquele queixo, é claro… algum outro Batman ficou tão bem de máscara quanto ele? Dizer que ele foi um bom Bruce só por ser bonito, no entanto, seria desrespeitar o legado de Kilmer, que faleceu hoje (2) aos 66 anos após longa luta contra o câncer de garganta. Batman Eternamente, como é prerrogativa de um Schumacher dado ao espetáculo cafona do mundo obcecado por mídia do final do século XX,sublinha muito esse pão-e-circo que Bruce serve à mídia para ofuscar seu heroísmo - mas também expõe esse ato como necessário para desviar a atenção dos problemas um pouco mais sérios que podem estar rolando por baixo do capuz.
Subestimado como contador de histórias e como artista com o dedo no pulso da cultura pop de sua época, Schumacher entendia que o Bruce Wayne playboy não era só um disfarce para o público, mas um disfarce para ele mesmo. Não à toa, colocou Batman para namorar uma psicóloga fatal interpretada por Nicole Kidman, determinada a desconstruir essa fachada e “consertar” o homem quebrado por baixo dela. E, como era de se esperar de um galã tentando escapar do estigma de galã (no mesmíssimo ano em que virou Batman, ele trabalhou com Michael Mann no clássico cinéfilo Fogo Contra Fogo), Kilmer levou essa desconstrução muito a sério.
Assistir a Eternamente hoje em dia, com os olhos afiados para a performance do protagonista, é ver um ator lutando para encaixar tragédia shakespeariana nos moldes não só de um filme de quadrinhos, como de um filme de quadrinhos singularmente dedicado ao camp, e singularmente obcecado com a superfície do que significa ser um super-herói. O Batman de Schumacher, com sua capa de arame armado, seu uniforme lustroso, seu abdômen esculpido - e, sim, seus mamilos! -, é a encarnação perfeita da vedete quadrinesca, voando e saltando por cenários iluminados com holofotes circenses ultra dramáticos. E o Bruce de Kilmer é o palhaço melancólico que realiza as acrobacias para as câmeras… mas a que custo para ele?
O cabelo puxado para trás, perfeitamente segurado com uma tonelada de gel, as golas rolê pretas e smokings impecáveis - todo o verniz de astro de cinema dos anos 1940 esconde, para o mundo e para si mesmo, a perturbação de um Macbeth enxergando sangue em suas mãos, de um Hamlet declamando “ser ou não ser” para uma caveira, de um Romeu agonizando no chão da cripta após tomar o seu veneno. A diferença é que Bruce não se permite sentir, e Kilmer internaliza essa tragédia escandalosa em olhares compenetrados, em uma rigidez que trai a falsidade de seu ato de bon vivant. Se Bruce nunca parece à vontade em Eternamente… bom, é porque ele nunca está à vontade sendo Bruce.
Encarnando esse estrelato desconfortável, esse verniz necessário para endurecer-se no estoicismo que é o único modelo de heroísmo masculino que temos, mas também transparente em sua artificialidade, Kilmer encontra tragédia pungente no mundo camp de Joel Schumacher. Ator e diretor, famosamente, não se deram bem no set de Eternamente - mas Schumacher morreu afirmando que o seu desafeto tinha sido “um Batman fabuloso”. Pudera: foi o choque entre as visões de ambos que fez do filme de 1995 uma preciosidade, ainda que pouco apreciada em sua época.
Pão, circo e angústia - um trio difícil de bater.
em 1994 quando fiquei sabendo da escolha dele para o papel já estava animado por conta dos trabalhos anteriores dele, Não me Decepcionou nem aos fas da época(revista Herói(numero 33) ,Revista Set(Edição 97 Julho de 1995).Nem o Criador do personagem Bob Kane que afirmou que Val Kilmer era o melhor ator a interpretar o herói (declaração bem pouco divulgada pela mídia Ontem),Espero que com a morte de Val se faça a Justiça a Seu Trabalho.