Na semana passada, Loki quase caiu no marasmo. A estabilidade de sua premissa, em que o deus da trapaça está preso em um local fora do espaço-tempo e investiga crimes temporais com um grupo de agentes bons de alívio cômico, ameaçou transformá-la em um CSI com superpoderes - mas a gente deveria saber que a Marvel tinha outros planos.
No terceiro capítulo da série, lançado na madrugada de hoje (23) pelo Disney+, Loki mostra que manter o status quo não é exatamente o seu forte (ainda bem). Ao invés disso, a série está mesmo interessada em levar o nosso protagonista para os caminhos em que sua jornada de autodescobrimento pode se desenvolver melhor.
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"Lamentis", título do novo episódio, começa com Loki (Tom Hiddleston) e a sua variante feminina, Sylvie (Sophia Di Martino), tentando invadir o quartel-general da TVA e encontrar os Guardiões do Tempo. Eles acabam sendo encurralados por Renslayer (Gugu Mbatha-Raw) e se teletransportam para o planeta que batiza o capítulo, onde um evento apocalíptico está em curso - com a bateria do transportador esgotada, os dois precisam formar uma aliança vacilante para conseguir sair de lá.
A roteirista Bisha K. Ali (que será showrunner da série da Ms. Marvel) mostra que tem mão leve para a exploração dos personagens. Seria fácil demais cair diretamente em uma divagação filosófica quando você tem duas versões de uma mesma pessoa juntas em cena - mas, ao invés disso, ela usa o humor e a ação com habilidade para contornar e construir uma relação crível entre Loki e Sylvie, antes de permitir que eles abordem de fato a natural curiosidade que sentem um pelo outro.
O resultado é que "Lamentis" se mostra inesperadamente divertido. Quando está em movimento, de fato, ele diverte mais do que qualquer coisa que a Marvel fez até hoje no Disney+, dando à diretora Kate Herron - finalmente - a oportunidade de mostrar que tem talento para cenas de ação. Aqui, ela conjuga o lindíssimo trabalho de direção de arte, efeitos especiais e fotografia em momentos de adrenalina relativamente simples (até o clímax, pelo menos), mas limpos, dinâmicos e eficientes.
Também por causa da mão leve do roteiro, Hiddleston e Di Martino conseguem mostrar performances verdadeiramente integrais como as duas versões de Loki. Eles lideram com o carisma, mostrando que sabem pegar o ritmo de uma boa troca de farpas entre dois improváveis inimigos, para depois surpreender o espectador com a profundidade do que são capazes de expressar com esses personagens: luto, insegurança, hesitação em se envolver de verdade com algo ou alguém, mas também uma nobilidade insuspeita que os fãs do MCU conhecem bem.
Como capítulo de televisão, "Lamentis" ainda é ágil, com bons dez minutos a menos do que os seus predecessores. Ali e Herron sabem exatamente onde terminar este pedaço da história para que sejamos deixados com aquele gostinho de "quero mais", o que nem sempre a Marvel foi boa em fazer. É também surpreendente e ousado, principalmente em suas revelações de personagem - além de ser simplesmente delicioso como pedaço de entretenimento.
É verdade que ele não avança muito a trama, além de umas poucas dicas aqui e ali. Mas qual é o ponto de uma trama se não temos tempo de nos importar com as pessoas envolvidas nela?