O cinema descobriu o quadrinho brasileiro. Depois de Tungstênio, agora chega aos cinemas O Doutrinador, obra que adapta o trabalho de Luciano Cunha que mostra uma espécie de “Justiceiro” brasileiro em uma jornada contra a corrupção.
O herói é a identidade secreta de Miguel (Kiko Pissolato), um agente federal altamente treinado que vive num Brasil cujo governo foi sequestrado por uma quadrilha de políticos e empresários. Uma tragédia pessoal o leva a eleger a corrupção endêmica brasileira como sua maior inimiga. E ele começa a se vingar da elite política brasileira em pleno período de eleições presidenciais, numa cruzada sem volta contra a corrupção.
A política, atualmente, é um tema que tem dividido o Brasil e o diretor Gustavo Bonafé decidiu criar um filme que tocasse nesse tema, mas não tomasse partido. Ao contrário de outras produções, é impossível ligar os personagens do filme aos principais nomes políticos do país e, com isso, ele cria um filme que tenta agradar todos os públicos e visa apenas o entretenimento, evitando causar qualquer tipo de reflexão no espectador. O Doutrinador está ali para acabar com corruptos – e é isso que ele vai fazer.
As cenas de ação são algumas das melhores já feitas no cinema brasileiro. A coreografia e a edição dão um dinamismo que realmente empolga em alguns momentos. Tudo isso aliado a fotografia, que explora muito bem a noite e cria cenas belas ao longo da produção, e a trilha sonora, que abre o filme em alto nível com “Brasil com P”, do Gog. O filme consegue equilibrar bem os elementos visuais caricatos dos quadrinhos com a realidade, mas tropeça no roteiro.
Um dos grandes problemas do longa é a necessidade de mostrar o quanto os políticos corruptos são maléficos. A todo o momento eles aparecem caçoando do povo, dando grandes e “malvadas” risadas junto com frases de efeito vazias. Com isso, a produção reforça sem necessidade que eles são os verdadeiros vilões – algo que o espectador entendeu desde a primeira cena. Ao mesmo tempo, o filme tropeça no início na relação do herói com sua filha e sua ex-mulher, onde literalmente não há conflito. A necessidade de mostrar que ele era um pai perfeito dá um ao filme uma sensação de “comercial de margarina”, onde a felicidade da família parece forçada.
Toda a transformação do herói parece apressada para caber em um filme e, com isso, perde-se a chance de explorar os verdadeiros sintomas da corrupção tocando apenas a ponta do iceberg. Além disso, Miguel parece ser um homem preparado pra tudo e, com o mínimo de ajuda de Nina, a hacker vivida por Tainá Medina, consegue invadir qualquer complexo e realizar qualquer missão ao mesmo tempo que a polícia comete erros bestas e perde pistas óbvias para impedi-lo. No próximo ano, haverá uma série baseada na história – o que deve favorecer a obra, uma vez que com mais capítulos os roteiristas serão capazes de dar mais camadas e complexidade aos personagens.
O Doutrinador é um filme visualmente bonito, mas que sofre com a superficialidade do seu roteiro por justamente tocar em um tema delicado atualmente. No fundo, essa é uma produção de puro entretenimento que tenta ser um filme de ação dos anos 90 – onde a história fica em segundo plano para favorecer bons tiros e boas lutas.